sexta-feira, outubro 27, 2006

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda Gira,
a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Fernando Pessoa.

terça-feira, outubro 24, 2006

Sorriso

Os paralelos, polidos, sujos, eram o espelho de uma Lua envergonhada.
As minhas botas velhas, prendiam-se ao chão…
Caminhava sem destino, eram duas da manhã, ouvia o barulho de vários cafés.
Tinha-me afastado da cidade, o pequeno caminho conduzia-me a uma zona de cultivo, estava muito vento…
Rapidamente os paralelos passaram a terra, não parei de caminhar, continuei absorto em pensamentos vários, estanquei!
O meu avô estava sentado numa pequena rocha, sorria para mim, enquanto eu caminhava para ele num misto de espanto, medo, e alegria.
Abracei-o, ele estava a chorar, sempre fora um homem de choro fácil, como eu.
O meu avô tinha morrido, à mais de dez anos, os últimos já quase totalmente invisual, tinha saudades.
Chorámos os dois, abraçados.
Disse-lhe que estava bem, que era feliz, mas ele já sabia isso tudo…
A paz dançava nos olhos do meu avô, ele estava bonito, talvez até um tanto mais jovem desde a ultima vez que o vira.
Como estava diferente, desde aquele dia, naquela cama de hospital.
Quis dizer-lhe que o amava, que éramos parecidos, que éramos da mesma casta, que infelizmente não pudemos conversar mais. Não era preciso…
Abraçamo-nos mais uma vez, desta vez com mais alegria, partimos cada um para seu lado, sem olhar para trás.
Caminhei tranquilamente para casa, a meio do caminho chorei outra vez, chorei de pura alegria, agradeci aquele fantástico momento, corri, corri muito.
Enquanto corria explanava a minha felicidade rindo e dançando com as árvores.
A lua brilhava agora intensamente, parei para a contemplar.
Acordei!
Acordei, acordei com um belo sorriso, disseste-me tu mais tarde, tinha sido apenas um sonho, um belo sonho…

sábado, outubro 21, 2006

A Gente Vai Continuar

"Tira a mão do queixo, não penses mais nisso
O que lá vai já deu o que tinha a dar
Quem ganhou, ganhou e usou-se disso
Quem perdeu há-de ter mais cartas para dar
E enquanto alguns fazem figura
Outros sucumbem à batota
Chega aonde tu quiseres
Mas goza bem a tua rota
Enquanto houver estrada para andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada para andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar
Todos nós pagamos por tudo o que usamos
O sistema é antigo e não poupa ninguém, não
Somos todos escravos do que precisamos
Reduz as necessidades se queres passar bem
Que a dependência é uma besta
Que dá cabo do desejo
E a liberdade é uma maluca
Que sabe quanto vale um beijo
Enquanto houver estrada para andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada para andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar
Enquanto houver estrada para andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada para andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar"
O Mestre Jorge Palma.

terça-feira, outubro 17, 2006

Rasganço

Rasgam-me, mas não me rasgam as memórias.
Começa a explodir em mim uma vontade de chorar, adeus Coimbra.
Todos riem à minha volta, caras quem nem sempre vi as vezes que gostaria, outras com quem partilhei momentos belos de pura felicidade, raros!
Jamais vos esquecerei, todos!
Oh, obrigado! Cidade mãe que me recebeste tão imberbe e fizeste de mim homem.
Dancei contigo tantas vezes!
Amiga Praça da Republica, soubeste sempre apanhar-me, quando o álcool me empurrou.
Quero hoje mais uma vez beber contigo Coimbra, vamos por uma última vez dançar de mãos dadas, olha, repara, estamos cá todos, todos os teus filhos bebem connosco.
Olha as nossas caras, ninguém quer saber de amanha, hoje somos teus, até deus Baco nos vir buscar.
Quero beijar todos esta noite, corro nu em busca da capa que sempre me embrulhou.
Abracem-me capas negras, gritemos alto, estamos em casa, Coimbra jamais nos faltará.
Aqui nunca me sinto perdido, quanto mais longe estou de ti, mais sinto que te pertenço.
Sei bem que irei chorar muito, enquanto a vida me o permitir, por ti, cidade mãe de toda a saudade.
Sei que o tempo não volta atrás, nem queria que voltasse, basta-me recordar e embrulhar-me na capa negra que nunca me faltou.
Rasgam-me, mas não me rasgam as memórias.

sábado, outubro 14, 2006

Lua

Escrevo sem pressa, afinal ninguém espera por mim, não tenho ninguém…
Gosto de me ir tocando, enquanto fantasio sobre a noite que não me espera, sobre a vida que não vivo.
Agradavelmente húmida, escrevo mais algumas páginas.
Na minha trama, sou sedutora, sou bela, e vivo com uma coragem que não consigo encontrar dentro de mim.
Fora do papel sou frágil, tenho medo.
Gostava de sair porta fora e amar qualquer um!
Gostava de me enroscar num banco de jardim, nua, esperar que um qualquer me possuísse, ali, debaixo da lua.
Corria uma pequena brisa, lá ao fundo ouvia-se o enrolar das ondas.
Empinei o meu rabo, duas gotas escorrem do meu sexo caindo na madeira já gasta do banco de jardim.
Sinto um homem chegar, não lhe vejo a cara, oiço o fecho, sou invadida por um membro quente, bom…
Aqueles movimentos repetidos alimentam-me a alma, enchem-me de prazer, não consigo conter-me, sou toda convulsões.
Grito de prazer, o meu som sobrepõe-se ao som do mar, parece-me agora que o mundo é perfeito.
Tento mudar de posição, quero ver os olhos do meu parceiro de dança, procuro virar a cabeça, mas logo uma mão grossa, suja, calejada, obriga-me a mergulhar no banco de jardim.
Arquejo…
O meu rabo agora ainda mais empinado, expõe uma ratinha rubra, sinto-me exposta como ela, não tenho medo!
O meu dominador, que na realidade é meu escravo, segura agora o meu pescoço enquanto me penetra com alguma violência.
Venho-me uma vez e depois outra, a droga do prazer corre dentro de mim, a minha cabeça não pensa, não pensa nada.
Aqueles movimentos continuam a repetir-se, cada vez mais depressa, cada vez mais loucos.
Um grosso pénis sai agora de dentro de mim, também já não precisava dele, um jorro quente cai-me nas costas, estremeci!
Que faço eu aqui? Quem é este homem? A medo digo-lhe para ir embora, para sair dali, para imediatamente se afastar.
Puxo as minhas calças, ainda envergonhada sinto o homem aceder ao meu pedido.
Já não corre em mim qualquer droga, minha cabeça está agora a mil, volto a ser o que o que sempre fui…
Tenho medo.

quarta-feira, outubro 11, 2006

Flores

Claro que não te dou flores…
Flores acabam por murchar…
Flores a murchar são morte, assim como vidas que se amam um dia vão morrer.
Se ao menos pudesse dar-te flores e com elas toda a terra que as alimenta.
Talvez acreditasse, que também o amor pode continuar depois da morte.
E assim nada temeria.

segunda-feira, outubro 09, 2006

Acordar

Estou farto desta vida
Nem para frente nem para trás
Tudo isto parece uma corrida
Onde não se consegue paz

Será que estou a ser duro
Será que não sei ver
Não será um mundo escuro
Onde ninguém quer perder

Terei eu que lutar
Ou simplesmente ter obediência
Acho que me estou a fartar
Deste mundo de violência

Isto é uma guerra brutal
Sem escrúpulos nem pena
Onde tudo é um matagal
E tu és uma planta pequena.

1996.

Tinha dezasseis anos que saudades…

sábado, outubro 07, 2006

Carla Bruni - quelqu´un m´a dit

Sentei-me, a voz dela dominava o quarto, será possível um homem apaixonar-se apenas por uma voz?
Claro que não, pensei.
Sorvo um café, que maravilha, o cheiro a cafeína é perfeito, os primeiros raios de sol invadem a minha janela.
Ela sai da casa de banho, tão fresquinha, traz apenas umas cuequinhas vermelhas ás pintas, masca uma pastilha, está feliz.
Coloco música e sorrio, de seguida, atiro a chávena janela abaixo, ficamos os dois em silêncio esperando ouvir o estilhaço no passeio. Partiu!
Olhamo-nos e rimos, somos duas crianças, lá no fundo sabemos que somos.
Ela saltou para a cama, começou a saltar na cama loucamente, aumentei o volume, fui saltar também.
Que perfeição, um peito redondo e firme salta, salta muito. Sorrimos.
A vida corre com força dentro de nós, corre-nos bem!
Fazemos dois meses de namoro, amo-a.
Morde o lábio de baixo, adoro, já emoldurei este pequeno movimento milhares de vezes.
O tempo é doce neste quarto, que maravilhoso estado de graça, que paz…
Faço-lhe uma rasteira, ela cai com estrondo no meio de mil almofadas, mergulho no seu corpo, que belo é…
Em menos de nada somos apenas um, no meu ouvido são segredadas parvoíces, rebolamos, lutamos, acariciamos, o tempo pára lá fora.
Sinto-me estremecer, não vou durar muito mais…
Unhas rasgam-me as costas, e então percebo tudo, tudo na minha cabeça faz sentido. Não é o sucesso, não é o dinheiro, nem sequer é a saúde, a vida são momentos, mas isso já eu sabia, não sabia é que a vida primeiro que tudo, é a coisa mais simples, a vida é amor!
Amor, unicamente amor, tão simples…

quinta-feira, outubro 05, 2006

Dançarino

Sou um dançarino, que apenas dança…
Não como, não bebo, acho que nem respiro, apenas danço.
Danço porque amo, sou feio e obtuso, não fui brindado com nada eloquente nesta vida, nunca fui encantador, dificilmente deslumbro, no entanto danço.
Danço porque não sei fazer mais nada, danço porque nasci com uma mais valia que ninguém vê!
Sei dançar!
Ou seja, sei viver!
Tenho esta capacidade de me apaixonar todos os dias, por vezes não reparo nas conversas, por vezes perco dinheiro, chego atrasado. Mas nunca deixo passar uma música que me seduz, se um poema me invade, imediatamente estanco, se o céu está azul eu já o contemplei, nunca é tarde para abraçar um amigo.
Distraio-me pelo meio de conversas, oiço muita gente mas não oiço ninguém, todos me chamam distraído.
Mas como posso ser eu distraído, se quando alguém na minha mesa, ou noutra, fala de amor, fala de encanto, fala das coisas simples, fala do copo de vinho partilhado, fala de laços humanos, eu acordo imediatamente!
Não, não sou distraído, sou bem atento, porque muitos batem na minha porta, e eu realmente não oiço bater, mas quando um qualquer me toca no ferrolho gritando partilha, largo tudo e de imediato estendo a passadeira.
Quando alguém entra na minha casa, e desinteressadamente quer mostrar-me novos mundos, imediatamente me torno seu escravo.
Quando vivo assim sou mais eu.
Vivo para estes momentos, em que a vida me toca.
E então choro, choro naturalmente e sinto-me terra, sinto integrado, sinto que faço parte, e nada me assusta, nem a morte!
Grito então alto, que amo a vida, que ela é feita de coisas belas, que faço parte do todo, não sou mais, não sou menos, simplesmente faço parte.

domingo, outubro 01, 2006

x.

Afinal, éramos tão felizes, porque não vieste dormir ontem, nem antes de ontem.
Já não sei que pensar, sinto tanta falta do teu cheiro, era tão bom falar contigo…Dava por mim a mergulhar nos teus olhos castanhos, transformava-me numa pasta, numa qualquer coisa preguiçosa, e sentia-me bem, sentia-me perfeita.
Quando andava contigo na rua de mãos dadas, sentia-me em casa, aliás tu eras a minha casa. Há três dias que não tenho casa!
Sou uma sem abrigo sem ti.
Espero por ti todas as noites, não tenho dormido na nossa cama, não consigo conceber a ideia de dormir nela sozinha.
Obviamente que a minha barriga não quer comer, já lhe disse que devia alimentar-se, tu não tardas deves chegar, mas ela insiste em não querer nada.
Mas o que mais me assusta, não é a minha barriga, é o que me diz o meu peito.
Tem-me dito coisas que não quero crer, tem-me dito que já não me amas, disse-me que te viu na rua com outra mulher, não posso acreditar…




Afinal, éramos tão felizes, sei que não fui dormir contigo ontem, não fui capaz.
Sinto-me lixo, sinto que não te mereço, não mereço mais as nossas conversas, odeio-me!
Nunca mais vou poder saborear a fundo o teu sorriso, nunca mais vou ser feliz, de certeza que não…
Merda para isto! Sou um fraco, quem me dera agora estar a nadar nos teus olhos azuis, perdi-os para sempre.
Hoje sou metade do que era, hoje o espelho reflecte fraqueza, sou pequeno, sou muito pequeno…
Antes de ontem dormi com outra mulher. Pior, passeei com ela toda a tarde, peguei-lhe na mão e sorri, sou mais um bandalho que não tem palavra, que não tem ideais, que não acredita.
Vendi-me por um corpo, por uma hora de prazer que agora amaldiçoo, troquei o efémero pela perfeição, troquei a nobreza pela vulgaridade.
Não te mereço, resta-me a lama, resta-me esconder-me de ti, pois não sou mais que um cão! Um cão que não se domina, sou o que pior se pode ser, um mísero corpo que se desloca sem propósito.
Perdi o norte, agora resta-me vaguear tristemente…

sexta-feira, setembro 29, 2006

Irmãs

Uma enorme dor de cabeça era sua companhia há vários dias.
Desde cedo conhecera a mão cruel da vida, a irmã mais velha fora violada e morta, os pais, esses, ela nunca vira, restava-lhe apenas a irmãzita mais nova.
Atirou o copo contra a parede, pintou os lábios e saiu, afinal era a vida que tinha, já tinha tentado fugir-lhe mas ela sabia bem, não se pode escapar de um berço arruinado, pode-se fingir por um pouco, tentar esquecer, mas lá no fundo continuamos a ser lixo como se tivéssemos uma doença sem cura.
Eram onze da noite, Flora deslizava por um passeio sujo trocando olhares com todos. O seu andar rebolado chamava atenção, ela era apenas pernas…
Parou um carro, um homem bonito com uma camisa um pouco desabotoada espreitou.
Ela aproximou-se, sorriu, e contrariamente ao seu comportamento habitual entrou antes de perguntar o que quer que fosse.
Ele engolia-a com os olhos, nervoso, parecia escolher palavras.
Flora, tranquila, saboreava o momento, inclinou-se para ele, trincou-lhe a orelha permitindo-lhe observar umas maminhas pequeninas.
Ele ia falar mas ela beijou-o imediatamente, introduziu a sua língua bem fundo, propositadamente fez durar aquele beijo. Ele era lindo…
Em seguida, sem querer, viu o seu reflexo no espelho retrovisor. Viu uma miúda demasiado pintada, uns olhos demasiado tristes, um cabelo demasiado vulgar…
Empurrou o rapaz, bateu com a porta e saiu!
Entrou em casa a correr, a sua colega de quarto chupava um gasto quarentão no sofá da sala, passou por eles com a maior das naturalidades entrando no seu quarto.
Podia agora ouvir a sua colega representar o teatro de sempre, o gordo seboso penetrava aquela miúda de vinte anos pensando que a enchia de prazer, como são ridículos os homens!
Despiu-se, tomou banho, estava agora nua frente ao espelho, contemplava-se.
Era bela, ela sabia-o tão bem…
Entrou na sala, rapidamente aquele homem asqueroso olhou para ela deslumbrado, Flora avançou como numa passerelle, de frente para ele abriu as pernas e sentou-se rapidamente, com a mão direita introduziu aquele membro meio mole na sua gruta ainda seca.
Em seguida beijou a sua amiga que procurava enroscar-se neles.
Começaram uma dança a três, o homem gemia de prazer, estava totalmente fora de si, não queria acreditar no que lhe estava acontecer…
Não demorou muito para que aquele corpo flácido rebenta-se numa fraca ejaculação de prazer.
Os pássaros pararam de cantar lá fora, por momentos pareceu não haver pessoas na rua, o mundo parecia ter congelado por um milésimo de segundo.
Em menos de nada um pequeno punhal perfurou um pescoço, em menos de nada duas jovens loiras e belas ficaram respingadas de sangue, em menos de nada um corpo gordo inerte caiu no chão.
Em menos de nada uma violação foi vingada, em menos de nada duas mulheres que se conheciam desde sempre poderiam dormir em paz.

quarta-feira, setembro 27, 2006

Desabafo

Jamais queiras ser totalmente feliz, jamais te aches corajoso, jamais te consideres totalmente tranquilo.
Procura a clara noção da tua tristeza, e serás feliz.
Repara bem, como és fraco e medroso, e a coragem sempre dançará em ti.
Observa o turbilhão que vai no teu peito, e serás sempre um homem tranquilo.

terça-feira, setembro 26, 2006

Janeiro.

Saiu de casa, o cabelo totalmente desgrenhado. Os olhos raiados de sangue choravam, choravam muito. Ele era personificação do descontrole.
Bateu com a porta, saiu para o passeio, atirou-se para o chão, chorava agora compulsivamente.
A dor que o tinha inundado minutos antes, ruborizava-lhe a face, e principalmente encolerizava-lhe a alma, tinha de se vingar, tinha de ser…
Colocou-se de joelhos, gritava estridentemente, um berro alto e seco espantava todos!
Berrava como louco, um berro descontrolado que não esboçava qualquer palavra.
Aos poucos aquele comportamento ia silenciando a rua. Pessoas estáticas observavam petrificadas.
Começou a bater com as mãos, violentamente, na poça de água, cada vez gritava com mais força!
Então levantou-se, começou andar tranquilamente, já não era a mesma pessoa, nunca mais voltaria a ser.
Naqueles cinco minutos tinha envelhecido, tinha envelhecido nem muito nem pouco, apenas o suficiente para aquele rosto que outrora fora de jovem, hoje ser dum homem maduro, muito maduro.
Cinco minutos, não mais, tinham-lhe roubado o pouco de criança que habitava nele, e com isso o seu impulso de viver, a sua alegria, o seu amor-próprio…
Acordou eram sete da manhã.
Vestiu o seu melhor fato, tinha vários. Os seus imaculados sapatos pretos brilhavam, descia tranquilamente as escadas.
Chovia, chovia intensamente. Apanhou um táxi.
Passado quinze minutos, já entrava suavemente na pastelaria. A sua cara não esboçava qualquer expressão, o seu amigo ao vê-lo sorriu, estendeu-lhe a mão.
A pistola já estava preparada, numa fracção de segundo, uma bala que libertava um pequeno silvo, penetrava o crânio daquele homem que comia tranquilamente.
Saiu a correr, todos na pastelaria, em pânico, mal respiravam…
Apanhou outro táxi.
Chegou ao escritório da mulher, iam fazer uma ano de casamento lá para o verão.
Abriu a porta de repente, ela levantou a cabeça da secretária, não conseguiu ler nada no seu rosto. A pistola em menos de nada apontou!
O cérebro mandou atirar, o indicador não se mexeu.
Ele olhava fixamente aqueles belos olhos azuis, chorava agora de raiva, ajoelhou-se.
A arma ainda apontada, mas o indicador não se mexeu, claramente não se ia mexer.
Atirou a arma contra a parede, gritou, gritou muito, batendo com as mãos no chão…

sábado, setembro 23, 2006

“ O artista é o criador de coisas belas. Revelar a arte e ocultar o artista é o objectivo da arte.”

“Nenhum artista tem simpatias éticas. Uma simpatia ética num artista é um imperdoável maneirismo de estilo.”

“A diversidade de opiniões sobre uma obra de arte mostra que a obra é nova, complexa e vital. Quando os críticos divergem, o artista está de acordo consigo mesmo.”


Oscar Wilde.

quinta-feira, setembro 21, 2006

Filha.

A água está tão fria!
O seu pé pequeno e delicado mergulhou, atrás dele um corpo de criança entrou também, inundou tudo, inundou todo o meu pensamento.
És minha flor disse-lhe de imediato, inundas-me de felicidade.
Atirou-me o seu olhar mais atrevido, dançou para mim, mergulhou para mim.
Enquanto dançava naquela água tão azul, pássaro diversos voavam sobre ela, cantava uma pequena melodia.
Como era bela, como era perfeita!
Senti-me pequeno, senti-me esmagado, aquela pessoa é a minha vida, pensei…
Como é possível…
Deixei de ser dono de mim, já não sou eu que estou ao leme do meu barco, amo-a, é tudo para mim, sinto-o tão forte, tão verdadeiro…
Enchi os pulmões de ar e gritei.
Não vou permitir que chores jamais, jamais verás os podres da vida, o teu mundo será sempre perfeito, vais ser sempre feliz, imensamente feliz, a mais feliz!
- Amo-te papá.
Chorei, chorei de enorme alegria!
Queria esquecer, mas sabia-o bem, a minha princesa não era diferente, iria sofrer ao longo da vida, como todos nós…
Não o consigo imaginar!

terça-feira, setembro 19, 2006

Júlia

Tinha um olho de vidro, pude vê-lo mal a cumprimentei. Procurei disfarçar o meu espanto, ela era deslumbrante, mesmo naquela sala vermelha, com vários sofás de cabedal negro, ela era deslumbrante!
Vestia apenas uma camisa de dormir, já um tanto rota. Por baixo distinguia-se facilmente um peito redondo e farto.
Tinha um ar tão sujo, peguei-lhe na mão e beijei-lhe os dedos.
Olhei a minha volta, que nojo! Gente imunda, agarrava-se a mulheres também imundas, o ar estava carregado de uma lascívia que contaminava todos.
Duas mulheres gordas ocupavam o sofá do fundo, fumavam observando a clientela, mostravam orgulhosamente, grandes seios já descaídos.
È claro que todos reparavam em mim, o meu fato de fino corte não se encaixava no contexto, aliás, eu não me encaixava no contexto.
Júlia olhava para mim com ternura, tinha as pernas cruzadas, duas pernas longas e pálidas, que quase tocavam as minhas.
Nos seus 42 anos, Júlia era uma mulher cansada, de olhar triste, muito triste!
Tinham passado 27 anos, desde a última vês que tínhamos estado juntos. Ela não me reconhecia, claro que não, eu era um miúdo naquela altura. Eu nunca me esqueci dela, era tão bela.
Desde esse dia, corri que nem louco, trabalhei que nem escravo, juntei dinheiro com avareza.
Enganei, roubei, mas nunca matei! Negociei todo o tipo de mercadoria, lidei com todo o tipo de porcaria, não ganhei amor a ninguém, apenas lutei e principalmente suei.
Suei que nem louco!
Primeiro ganhei respeito, e depois chegou o dinheiro, muito dinheiro!
Hoje estou aqui, finalmente estou aqui!
Tinha um ar tão sujo, peguei-lhe na mão e beijei-lhe os dedos.
Mãe estou aqui!
Inevitavelmente comecei a chorar, sabia que ia ser assim.
Amo-te tanto, hoje tudo muda para ti, sou o teu filho, lutei contra os ódios do mundo, fiz-me pedra para te salvar, vamos viver juntos o tempo que nos resta, torna-me humano outra vez.

segunda-feira, setembro 18, 2006

A única desculpa que merece quem faz uma coisa inútil é admira-la intensamente.

Oscar Wilde.

sexta-feira, setembro 15, 2006

...

E assim sou triste, sou a puta da tristeza, mas não me justifico, nem aceito conselhos, pois eu domino!
Não quero as tuas lágrimas, pois eu sou melhor, eu sou vida! Hoje em mi corre fel, corre uma amargura no meu sangue, que contamina e destrói.
Mas eu sou vida! E vou renascer, porque tu não mereces uma lágrima minha, porque tu…, porque tu….
Como te amo, faltam-me as palavras porque te amo, mas sabes que vais morrer dentro de mim, eu sei bem que tu sabes e tens medo.
Tu não me amas, isso, ambos sabemos, mas essa tua vaidade, essa tua vaidade que te possui, que faz de ti um monstro, não me quer perder!
Claro que não quer! Porque essa tua parte negra quer passear-me na rua, ser minha dona, fazer de mim decoração.
Mas tu sabes que eu não sou decoração, eu sou vida!
Corre em mim uma força que conheces, invejas e temes.
Hoje, amanha e depois serei lama, serei farrapo, serei álcool, serei muito álcool.
Mas depois vou acordar, e por entre uma dor de cabeça e um estômago embrulhado, vou ouvir uma voz que diz, ÈS VIDA!
Pois sou.

quinta-feira, setembro 14, 2006

Praia.

Uma gota de suor caiu.
Caiu corpo abaixo, mergulhando no umbigo.
Mergulha em mim amor, sou mar tu és rio.
Sou flor, colhe-me ardentemente.
Sou covil, és serpente.
Misturamos especiarias, bebemos iguarias.
Somos tribais, acasalamos como animais.
Um pouco de sangue, talvez fosse vinho.
Como me perco, serei louca? Talvez.
Abraça-me agora com carinho.
É para ti a minha primeira vez…

quarta-feira, setembro 13, 2006

Ai…

Ai…
Que vontade de voltar a ser o que era, o espelho cospe-me uma imagem que tanto me faz rir como chorar.
Nem sempre foi assim…
Nem sempre fui este homem de traços duros, e pele gasta.
Era belo, aliás, ainda é possível encontrar em mim alguma beleza. Era esclarecido, vivia de peito aberto, amava-te tanto…
Hoje amo-te ainda mais, afinal 50 anos já são alguma coisa, mas já não sou aquele miúdo que te roubava ao mundo, tu linda sorrias, deixavas-te ir! Então eu amava-te uma vez e depois outra e às vezes ainda outra, vibrávamos os dois, afinal, éramos só um…
Obrigado por ainda continuares a meu lado, já choramos tanto os dois…
Acredita meu amor, venero-te, és a minha vida!
Perdoa-me por ter envelhecido, mas acredita, desde que te vi que és minha dona.
Beijo.

terça-feira, setembro 12, 2006

África

Um enorme cansaço é dono de mim. Os meus pés duros e tristes caminharam noite inteira.
Descalço, durante horas fui árvore, não fui mais que isso, uma árvore que anda, que anda sem parar.
A dor caminhava comigo, claro que sim. Mas o que é a dor para mim, não é nada!
O que é a dor de caminhar, para um homem que não vê o seu filho comer há três dias. Ele é tudo o que eu sou, carregarei o meu filho para lá da montanha.
Pode chover, até que a terra seja mar, pode fazer sol e tudo derreter, ainda assim com a força de mil leões, o meu filho verá o doutor.
Nunca fui nada nesta vida, mas sou Rei todos os dias, quando ele me beija.

domingo, setembro 10, 2006

Chuva.

Sou viciado, sei que sou. Por vezes diverte-me este estado de ausência, este estado semilouco, mas ele dura tão pouco, é tão perfeito, tão breve.
Navegava dentro de mim como de costume, o mundo era para mim um misto de cores estranhas, acho que cambaleava quando te vi.
Estavas suja, o teu vestido branco estava completamente negro no fundo, que lindo sorriso!
Rias-te de mim com os teus dentes brancos, estavas sozinha, divertias-te com a forma desconjugada com que eu me deslocava, chovia!
Disse-te tristemente, que há mais de sete anos, todos os dias, me deslocava assim para casa. Então tu, rebentaste num riso descontrolado que durou muito, eu chorei uma lágrima que a chuva levou.
Pensei no passado, pensei na vida, sou um fraco andarilho numa rua de Lisboa, tu és luz, és alegria, és prazer…
Disse-te que eras linda, que eras perfeita, que por ti nasceria outra vez, que por ti não seria mais sombra, disse-te que a meu lado serias a mulher mais feliz!
Tu sorriste ligeiramente, aproximaste-te da minha boca, disseste baixinho, - “Desculpa, mas metes-me nojo.”
Sorri.

sábado, setembro 09, 2006

Sei-o tão bem!

Bebe comigo deste vinho, mesmo não gostando…
Dança comigo esta música, mesmo não sabendo…
Agora fode-me, mesmo eu não querendo…
Viola-me intensamente, penetra-me, mesmo sabendo que não me desejas…
És meu escravo, fico sempre molhada, cada vez que te obrigo a penetrares-me…
Que tesão me dás! O teu membro grosso, belo e delicioso, chupava-o o dia todo se pudesse.
Sangro-te as costas, tu mereces! Gemes agora, enquanto te esvazias dentro de mim, és belo nos teus vinte e cinco anos.
Depois de hoje, não quero mais voltar a ver-te, sei-o tão bem!

Danço...

Danço por campos de papoilas. Nua, sou mais feliz, sou mais eu.
Mil músicas tocam em mim, danço ao sabor de todas elas.
Sou feliz! Sou tão feliz, meu Deus como é possível…
Caminho descalça pela erva, aquele friozinho, é a minha companhia.
Vou sem pressa, vou sem destino, que bela caminhada!
A vida não é nada para mim, eu não sou nada, vivo por viver, não quero destacar-me, sou apenas mais uma formiguinha, sou apenas alguém no meio de milhões, como é bom respirar!
Aqui estou mundo, ama-me! Dança comigo, faz amor comigo, mostra-te, quero ver tudo o que tens para me dar, quero ser tua amante para sempre.
Quero fundir-me contigo, quero morrer um dia com este sorriso nos lábios, embrulhada em ti.

quarta-feira, setembro 06, 2006

Tu sabes...

Tristeza, és perversamente bela, tu sabes…
Em ultimo reduto, estás sempre lá.
Companheira, amiga, mas cruel, estás sempre lá
Odeio-te, mas tu nunca me enganas.
Também tu és infeliz, fazes-me rir…
És bela e infeliz como eu, tu sabes.
Sei que não prestas, mas admiro a tua pureza
Sei que não me amas, mas não te sou indiferente
Sei que queres partir, mas eu obrigo-te mais uma vez a ficar!

segunda-feira, setembro 04, 2006

Sábado

Estava cansado, atirei a minha aliança para o cinzeiro. Finalmente tinha acabado! Fumava tranquilamente, lá fora chovia, o meu chorão, (única arvore que plantei em toda a vida), vergava-se a um vento imponente e demolidor.
Eram quatro da tarde, os filhos do meu vizinho indiferentes ao terrível clima, jogavam futebol gritando constantemente, via-os da minha janela.
Respirei fundo, não estava feliz, embora não soubesse porque. Já tinha bebido uma garrafa de vinho sozinho, todo o meu pensamento estava toldado, sabia-o bem.
Apetecia-me gritar, sair lá para fora nú e gritar! Desafiar o tempo, desafiar os deuses, cuspir nas pessoas, violar mulheres, bater em homens mais fracos que eu.
No entanto nada disso fazia, apenas me embriagava como qualquer paspalho de classe média. Também sabia que não era correcto praticar tais acções, sabia bem que jamais teria coragem para realizar tais inventos, não era da minha natureza ser violento, no entanto esta revolta assaltava-me neste estúpido e solitário sábado à tarde.
A ideia varreu-me o espírito como um relâmpago.
Sem pensar, agarrei o telefone, acertei o preso (cento e cinquenta euros), passado uma hora ela já tocava a campainha.
Sorriu quando lhe abri a porta, fantástica, morena, calçava como mandava a praxe uns horríveis sapatos pretos de salto alto. Lábios perfeitos, grossos, lançaram um sorriso de profissional. Ela ia falar, interrompi-a imediatamente, perguntei-lhe antes que falasse alguma coisa, se teria coragem de atirar os sapatos porta fora.
Sensualmente ela mordeu por momentos o lábio superior, em seguida atirou violentamente os sapatos quase acertando nos miúdos.
Encostou-se imediatamente ao balcão do bar da minha sala, de costas para mim deixou cair uma curta saia ao xadrez, um rabo pequeno mas empinado prendeu o meu olhar, um fio dental cor-de-rosa separava duas nádegas convidativas.
O seu cabelo negro e liso estava apanhado, o rabo-de-cavalo que formava estava preso por um pequeno elástico da cor das cuecas.
Sentia-me a enlouquecer, avancei louco, sem demoras agarrei-lhe o cabelo, forçando-a a encostar a boca no balcão. Resistiu a vergar-se, obriguei-a com violência, dobrou-se sobre si mesma lançando-me as únicas cinco palavras que lhe ouvi.
Quero sentir-te no meu rabo! Disse baixinho.
Ao ouvir isto larguei-a, virei costas e vim sentar-me no sofá, disse-lhe calmamente sorrindo, que quem mandava ali era eu e que não queria que mais abrisse a boca.
De imediato tirou as cuecas, meteu-as na boca, tirou a parte de cima de onde saltaram duas maminhas pequenas e rijas.
Do fundo da minha sala, sentado, ao ver aquela miúda gatinhar para mim de olhos cravados no meu sexo, não pude deixar de pensar como era solitário. Mas logo em seguida pensei que a ia devorar, ela tirou-me as calças e acolheu-me na sua boca, que quente estava!
Escoria-lhe saliva pela boca enquanto chupava lentamente o meu pénis, passados alguns minutos já ambos corríamos a alta velocidade, ela parecia estar a tirar tanto gozo do sexo oral como eu. Devíamos ter praticamente a mesma idade, não devia estar habituada a clientes tão novos.
Não aguentei mais, procurei retirar o meu membro, ela ao aperceber-se do meu acto agarrou-me pela cintura, cravou as unhas no meu rabo e abocanhou-me com força.
Ejaculei! Quente a boca dela acolheu todo o meu sémen, só quando sentiu que tinham terminado todas as minhas convulsões retirou a sua boca, sorriu para mim.
Engoliu tudo na minha frente, vestiu-se, apanhou a minha aliança e saiu porta fora. Deixei-a ir…

quinta-feira, agosto 31, 2006

É tão vermelho o teu sofá!

Sento-me no teu sofá vermelho, tu não estás. É tão vermelho o teu sofá!
Fecho os olhos. És tão morena! Deitada assim nua, encolhes ligeiramente a perna de forma a tapares o teu lindo e viscoso sexo, todo o meu corpo ainda cheira a ele.
Brincas deliciosamente com o teu pé, é tão perfeito.
Agora viras-te de barriga para baixo, sentes o contacto da tua vagina com a já gasta lona vermelha, o teu rabo redondo e empinado abarca toda a largura do sofá, convida-me.
Deito-me sobre ti, o meu membro, ao tocar na tua pele cresce. Com as duas mãos seguro-te o pescoço, começas a mover as tuas ancas, os teus movimentos circulares fazem-nos entrar numa fricção louca, cada vez mais rápido, cada vez mais rápido.
Já em desespero, sem tirar as mãos do teu pescoço procuro encontrar o teu buraquinho. Finalmente consigo, mesmo sem ver a tua cara sinto-te arquejar, já perdida libertas um pequeno e singelo gemido. É bom viver! A frase está a ser cantada em todas as cavidades do meu corpo.
Adoro o teu sofá, mesmo quando tu não estás.

Vício de viver.

Poderá o vício do jogo ser mais destrutivo, que amar uma mulher que não nos quer?
Será que existe algo que nos perturbe mais, que sentir dentro de nós um amor, de tal forma incondicional, de tal forma arrebatador, que nos destrua e nos roube o que temos de mais sólido, a nossa vontade de viver?
Sem duvida, amar loucamente uma mulher que não nos quer, é de longe mais destrutivo que qualquer vício.
Não considero que a ausência da mulher que amamos, mas que nunca tivemos, nos possa roubar a vontade de viver.